segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Artigo de Rui Castro sobre a "melhor idade".



 
 

Esse povo brasileiro é, no mínimo, um povo de mente frívola...
Adora eufemismos. Por exemplo, crioulo não é mais preto, mas afro-descendente.
Favela não é mais favela, mas "comunidade".
Velhice é "melhor idade".
Mas a quem se pretende iludir?
É tudo uma merda mesmo...
Enfim, é a realidade, às vezes muito cruel, como é o caso da velhice.
O que dá toda razão a Rui Castro.
Leia.

Prazeres da melhor idade.
Melhor idade é a puta que te pariu - a melhor idade é de 18 aos 40 anos... 
A voz em Congonhas anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" - algo entre os 60 anos e a morte.
Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.
Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.
Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.
Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: "Voltando da farra, Ruy?". Respondi, eufórico: "Que nada! Estou voltando da farmácia!". E esta, de fato, é uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.
Primeiro, a aposentadoria é pouca e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução.
Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te dê uns 60 anos.
Olha... a analise dele é rápida. Leva uns 20 metros e, quando pára, tem a discussão se você tem mais de 60 ou não.
No outro dia entrei no ônibus e fui dizendo:
- "Sou deficiente".
O motorista me olhou de cima em baixo e perguntou:
- "Que deficiência você tem?"
- "Sou broxa!"
Ele deu uma gargalhada e eu entrei.
Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo...
Eu disse bem baixinho para uma delas:
- "Uma mentirinha que me economizou R$ 3,00, não fica triste não".
Bem... fui até a pedra do Arpoador ver o por do sol.
Subi na pedra e pensei em cumprir a frase. Logicamente velho tem mais dificuldade. Querem saber?
Primeiro, tem sempre alguém que quer te ajudar a subir: "Dá a mão aqui, senhor!!!"
Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça.
Sentar na pedra e olhar a paisagem.
É, mas a pedra é dura e velho já perdeu a bunda e quando senta sente os ossos em cima da pedra, o que me faz ter que trocar de posição a toda hora.
Para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos se não, nada vê.
Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz:
- "O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair."
Resmungo entre dentes: ... "só se cair em cima da sua mãe"... mas, dou um risinho e digo que esta tudo bem.
Esta titica deste sol esta demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e o sol nada.
Vou pensando - enquanto desço e o sol não - "Volto de metrô é mais rápido..."
Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá esta um puto de um guarda que fez curso, sei eu em que faculdade, que tem um olho crítico de consegue saber a idade de todo mundo.
Olha sério para mim, segura a roleta e diz:
- "O senhor não tem 65 anos, tem que pagar a passagem."
A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.
Com os pés doendo fico em pé, já nem lembro do sol, se baixou ou não dane-se. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos...
Lá estou eu mergulhado em meus profundos pensamentos, uma ligeira dor de barriga se aconchega... Durante o trajeto não fui suficientemente rápido para sentar nos lugares que esvaziavam...
Desisti... lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dei de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava... Me senti o máximo.
Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem.
Quando já contente, pelo menos com o flerte, ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou.
É agora...
Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho) ela pegou na minha mão e disse:
- "O senhor não quer sentar? Me parece tão cansado?"
Melhor Idade??? Melhor idade é a puta que te pariu!
 

sábado, 8 de setembro de 2012

Cadeias da Paraíba fabricam monstros, segundo auditora.


Ouvidora diz que presídios “criam monstros”

Chocada com o que viu no presídio da Paraíba, a ouvidora da Secretaria de Segurança Pública, Valdênia Paulino, critica militarização nos presídios e falta de percepção da sociedade
Relatório do Conselho Estadual de DH da Paraíba
Conselheiros foram detidos porque pediram aos presos que fotografassem celas às quais não tiveram permissão para visitar
No último dia 28, a ouvidora da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Paraíba, Valdênia Paulino, esteve detida por três horas na Penitenciária Romeu Gonçalves de Abrantes, em João Pessoa. Como mostrou ontem (7) o Congresso em Foco Valdênia e outros cinco representantes do Conselho Estadual de Direitos Humanos foram presos por determinação do diretor do presídio por terem registrado em fotos o cenário de degradação a que estão submetidos os presidiários – nus, sem colchão, nem água, acomodados entre fezes e urinas.
Integrante do Conselho Estadual de Direitos Humanos, a advogada diz que não há como recuperar qualquer pessoa em um ambiente em que não há respeito à dignidade humana. Na opinião dela, o poder público falha ao deixar o controle do sistema prisional nas mãos de policiais militares. E falha também a parcela da sociedade que defende o pior tratamento possível aos presos, segundo ela. O atual modelo, diz a ouvidora, só forma “monstros” com dinheiro público.
“Uma parte da sociedade, por falta de conhecimento, acredita que o preso deve ser tratado assim mesmo. Mas não vê que os seus impostos estão sendo usados para criar monstros. Esses presos estão lá para serem recuperados”, afirma. Tratados em condições desumanas e degradantes, em vez de serem ressocializados, os presidiários voltam ao convívio com a sociedade ainda mais revoltados e violentos, observa.
Para Valdênia, a presença de militares nos presídios prejudica a recuperação dos presos e configura um “desvio de função”. “Cada um que fique com suas atribuições. Há mais de 1,5 mil policiais militares trabalhando no sistema penitenciário. Mas o próprio legislador foi inteligente ao prever que quem prefere não pode cuidar do preso. Estão militarizando o sistema penitenciário”, avalia. Advogada e pedagoga, a ouvidora tem mestrado em Direito Social e foi indicada pelo Conselho para o cargo, em lista tríplice encaminhada ao governador Ricardo Coutinho no ano passado.
Questionada pela reportagem, a Secretaria de Administração Penitenciária diz não haver incompatibilidade no exercício das funções. O secretário da pasta é um coronel da Polícia Militar. O diretor da Penitenciária Romeu Gonçalves de Abrantes, onde Valdênia foi detida, é um major. A ouvidora, porém, não está sozinha em suas críticas.
Recuperação?
“Temos de acabar com essa militarização do sistema penitenciário. Tem de haver administradores que conheçam a Lei de Execuções Penais. A pena é a privação da liberdade, mas a direção tem de dar condições para que eles retornem à sociedade e não venham cometer os mesmos crimes. Mas isso não ocorre”, reclama o deputado Luiz Couto (PT-PB), ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.
O procurador da República Duciran Farena, que também faz parte do Conselho Estadual de Direitos Humanos, acredita que não há como falar em recuperação se não houver mudança de filosofia no sistema prisional brasileiro. “Não dá para falar em recuperação em um sistema prisional em que os presos não trabalham. Temos, pelo menos, de evitar que eles morram”, considera.
Degradação
Amontoados, nus, em celas fétidas. Assim o Conselho Estadual de Direitos Humanos encontrou os presos em penitenciária da Paraíba
Durante a visita à penitenciária, os seis conselheiros dos Direitos Humanos encontraram alojados 80 presos que faziam greve de fome por melhores condições de tratamento. Motivos para queixas não faltavam: não havia vaso sanitário, apenas uma bacia higiênica, que era compartilhada por oito dezenas de homens. Não havia colchão nem rede para os presidiários dormirem. Eles reclamavam de sede, que não tinha água potável e que passavam até meses sem tomar banho de sol.
O cenário tornou-se ainda mais degradante quando os conselheiros se dirigiram à ala em que estavam as chamadas celas de disciplina. Apesar de os agentes penitenciários se recusarem a abrir os portões para a visita dos conselheiros, o mau cheiro denunciava a precariedade das condições. “Havia sinais de vômito na área externa das celas e só podíamos ver as mãos dos presos e ouvir o que tinham a dizer. Não era possível vê-los, pois a abertura para ventilação nas paredes era pequena e as celas estavam escuras.”
Foi por uma dessas frestas de ventilação que os conselheiros passaram uma máquina fotográfica para que um dos presidiários registrasse o que se passava lá dentro. Não havia móveis nas celas. Nem vestes em seus corpos. Todos se amontoavam nus, sem acesso a banho e água potável. Alguns informaram que estavam há quatro meses sem banho de sol e que havia, entre eles, presos feridos pelos agentes penitenciários.

Governador promete asfalto para a Chã do Lindolfo.

Bananeiras está, politicamente, quente, muita zoada, barulheira geral, mas não se preocupem, pois é a campanha para a Prefeitura e Câmara de Vereadores que está nas ruas. Na tarde de hoje, às 15 h, tem comício na Vila Maia, povoado próxima da sede do município, dividido entre os candidatos da situação e oposição, Douglas e Edgar, o verde contra o azul. Até agora, não houve nenhuma briga de rua. Motivo: a Polícia Militar está nas ruas com o seu policiamento ostensivo motorizado. O candidato da situação, do grupo familiar dominante na política de Bananeiras, é o mais cotado, segundo as pesquisas. Os boatos são constantes. Dizem que o candidato da oposição está liso, sem capim para alimentar a campanha. Segundo Djalma dos Santos, vai se de capote. Aguardemos. Os dois lados disputam os espaços palmo a palmo. Campanha radical e dentro dos padrões de radicalismos políticos característicos da região do brejo paraibano.
O governador Ricardo Coutinho, na manhã de ontem, durante o desfile de 7 de Setembro, no centro da cidade, assinou a Ordem de Serviços para o asfaltamento da estrada que liga Bananeiras ao povoado de Chã do Lindolfo, a terra da família Grilo. Prometeu começar os trabalhos ainda neste ano. Muita gente duvida, mas o governador  Ricardo Coutinho não tem fama de mentiroso e gabola. Vai cumprir a promessa feita ontem, dizem. Outros duvidam, pois muitos políticos prometeram o mesmo nas últimas 5 décadas. São 5 quilometros de estrada de piçarro, hoje.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Quem tem dinheiro do BB, já pode doar para hospital.

Convênio entre Hospital Napoleão Laureano, Banco do Brasil e Correios permitirá que correntistas possam programar doações que serão debitadas em suas contas correntes
 
Nesta sexta-feira, 24, um café da manhã marcará a celebração de uma importante parceria entre o Hospital Napoleão Laureano, o Banco do Brasil e a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). Na ocasião, será lançado um convênio, através do qual os correntistas do Banco do Brasil poderão autorizar o débito mensal de uma determinada quantia em sua conta corrente, destinada às atividades do Hospital relacionadas ao tratamento do câncer. O evento está marcado para às 8h30, no Sonho Doce Recepções em João Pessoa (PB).
 
De acordo com o diretor geral do Hospital Napoleão Laureano, João Batista Simões, os recursos provenientes dessas doações têm uma destinação especifica. Eles servirão para custear tratamentos que não estão na lista de procedimentos cobertos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Qualquer cliente ou funcionário do Banco agora poderá contribuir com o objetivo de ajudar a tratar o câncer”.

 
João Simões explica ainda que o doador assina o convenio diretamente com o próprio Banco e passa a ter mensalmente debitado em sua conta, na data que ele decidir, uma quantia que o próprio cliente determina. “Não há limitação de valor, cada pessoa avalia e decide o quanto deseja doar”, explica o diretor. No momento em que o correntista não quiser mais efetuar as doações, basta entrar em contato com o Banco e pedir a suspensão da cobrança.
 
A doação de pessoas físicas e jurídicas poderão ser deduzidas do imposto de renda após a regulamentação da medida provisória nº 563/2012 que se encontra no Congresso Nacional, para aprovação, encaminhado pela Presidência da República. Os formulários para adesão, juntamente com o material informativo, poderá ser obtido em qualquer agência do Banco do Brasil bem como dos Correios, seu correspondente bancário.
 
I2 Inteligência
Setor de Assessoria de Imprensa


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Postado por AssessoRN - Jornalista Bosco Araújo no AssessoRN em 8/23/2012 09:19:00 PM
Resposta rápida

sábado, 18 de agosto de 2012

Mais uma promessa?

Governo do Estado recupera rodovias com micro-revestimento

Fonte:SECOM/PB.
Sexta-feira, 17 de agosto de 2012 - 15h26
Mais de 40% dos 32 km da PB-250, entre Prata e Ouro Velho, na região do Cariri, já foram recuperados com a aplicação de micro-revestimento asfáltico. O investimento é de R$ 2.420.000,00, dentro do programa do Governo do Estado de restaurar as rodovias estaduais, entre elas, a PB-032, a PB-073 e a PB-008, entre o trevo da Praia da Penha e Monsenhor Magno, no Valentina Figueiredo, em João Pessoa.
O diretor superintendente do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), Carlos Pereira, enfatizou que a recuperação da malha rodoviária estadual é um compromisso do Governo do Estado, que tem assegurado ao DER todo apoio para o desenvolvimento do programa executado na Paraíba. “Outras rodovias serão incluídas na programação em todas as regiões do Estado”, adiantou o diretor.
Ele ainda destacou que o trabalho feito pelas equipes das oito Residências Rodoviárias melhorou as condições de tráfego em centenas de rodovias. Os técnicos inspecionam todas as obras da malha rodoviária. Na quarta-feira (15), por exemplo, eles acompanharam a aplicação do micro-revestimento na rodovia entre Ouro Velho e Prata. A obra segue o cronograma estabelecido.
Para maior agilidade, o DER intensificou os serviços de recuperação e manutenção de estradas. O foco são os trechos que apresentam falhas no asfalto para oferecer melhores condições de tráfego e segurança. As construtoras têm um prazo de seis meses para concluírem o que consta dos contratos assinados com o DER.

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Observações do blogue: são 25 quilômetros de asfalto ruim, entre Belém e Passa e Fica, no RN. Buracos enormes, verdadeiras armadilhas para os condutores de caminhões, carros e motocicletas.No trecho foram contadas 8 crateras que parecem com as crateras da Lua. Acidentes são muitos, incontáveis danos nos veículos. E quem paga o pato? Os usuários da estrada abandonada, sem sinalização, principalmente n os cruzamentos.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mestre Saldanha do Brejo.

colunas

Natal, 15 de Agosto de 2012

Jornal de WM

por Woden Madruga

Esta coluna é atualizada diariamente

 

 

Queixas do 

Mestre Saldanha

15 de Agosto de 2012
tamanho do texto A+ A-
Sábado, agora, em Cajazeiras, me encontrei com o mestre Ancelmo Saldanha. Ele vinha das bandas da Serra do João do Vale, terras de seus antepassados que se espalham derna de Belém do Brejo do Cruz, na Paraíba, a Janduís, do lado de cá, passando por Paraú e Campo Grande. Eu ia no rumo de Queimadas. Fazia uns cinco anos do nosso último encontro, acho que no meio da feira de São Paulo do Potengi. Cajazeiras é um lugarejo, cortado pela BR-226, coisa de uns seis quilômetros da Reta Tabajara, de quem vai na direção de Santa Cruz, Currais Novos, Seridó. Pertence ao município de Macaíba, bem próximo às divisas com São Pedro e Bom Jesus.

Há muitas eras que Cajazeiras tem sido parada obrigatória para quem viaja por esses caminhos e veredas entre o Seridó e a Capital. Derna dos tempos de quando se andava a cavalo. Eram cinco, seis dias montados em cavalo ou em burro ou burra mula, do Seridó até Macaíba, saindo de Serra Negra, como se lê os livros do doutor Juvenal  Lamartine de Faria, de Oswaldo, o filho,  e de Pery, o neto. Cajazeiras já aparece como uma das paragens. Era uma fazenda. Mais tarde o lugar ficou famoso por conta do Café das Marias, aí já no tempo das sopas, dos ônibus, dos automóveis. Café e restaurante. O lugar se chamava Lagoa das Marias. As Marias já não existem mais, a Lagoa, sim, agora pousada  de dezenas de garças. Cajazeiras cresceu naquele entorno, mais  pra cá da banda de Macaíba. Em frente às antigas “Marias” começa a estrada para São Pedro, São Paulo do Potengi e, num desses desvios, o caminho para as Queimadas, Lagoa de Velhos. Serra de Joana Gomes.

Hoje o lugar cresceu bastante (qualquer dia desses será município autônomo, dependendo do interesse do deputado, um vereador aqui tantos acolá) à margem da BR, muitos quiosques e barracas onde se vendem comidas e bebidas, tem uma galinha caipira muito recomendada, e uma barraca que serve farofas de deixar o poeta Alex Nascimento lambendo os beiços. Mais na frente uma barraca com artesanato e outra que vende  grudes tão bons quanto os de Extremoz. Foi lá que encontrei o mestre Ancelmo. Me abanquei ao seu lada para saborear, não somente os grudes com café  bem quente, mas também a prosa do velho sertanejo, tataraneto de criador de boi e de tirador de leite.

Vinha para uma consulta médica (tira do bolso um cartão com nome do famoso proctologista, doutor Otávio Benildo Rocha Venturoso, um sergipano que fora indicado por um criador de cabras e ovelhas, seu compadre Francisco Dantas). Vinha sofrendo, a algum tempo, de prisão de ventre, já havia tomado não sei quantos chás e outras meizinhas sem apresentar nenhuma melhora. Por isso recusou o grude, a tapioca,  o bolo de milho e até o café. Pediu apenas uma garrafa de água mineral.

E foi por conta dessa água que o mestre Saldanha começou a desenvolver sua tese de que trabalhar com agricultura e com boi no Nordeste é botar dinheiro fora, mais agravado, agora, com a seca braba e o descaso do Governo. Puxou do bolso uma folha de papel com várias anotações, datas, números e cifras e foi falando:

- Olhe, seu Madruga, esta garrafinha (350 ml) de água mineral custa R$ 2,80. Pois bem, pra poder pagá-la tenho que vender 3 litros de leite e arranjar por fora mais 10 centavos. Me pagam por um litro de leite 0,90 centavos. Olhe mais: um ovo de galinha caipira, apanhado na capoeira custa 0,50  centavos. Um litro de leite não compra dois ovos.

Toma um  gole de água e continua:

- No começo do Plano Real (1994) um saco de farelo de soja custava R$ 11,20 que correspondia ao valor de 32 litros de leite, então valendo 0,35 centavos. Hoje, o mesmo farelo vale R$ 78,00 o idêntico valor de   86 litros de leite (0,90); Um saco de ureia (pra fazer ração), no Plano Real, era vendido por R$ 13,30, que correspondia a 17 litros de leite (0,35); no dia de hoje o mesmo saco de ureia é vendido por R$ 112,00, que é o valor de 124 litros de leite.

Outro gole d’água:

- O salário mínimo, no Plano Real, era de R$ 70,00. Pagava-se com 200 litros de leite. Hoje, o salário é de R$ 622,00. São precisos 691 litros de leite, a 0,90. Tem mais: um bezerro da hora que nasce até 45 dias de vida vale R$ 60,00, o equivalente a duas galinhas caipira no Agreste (pode perguntar na Feira do Alecrim) e três no Sertão.

O velho Saldanha não para de fazer contas e,  num tom de derrotado, acrescenta:

- Um salário  mínimo corresponde ao preço de 10 bezerros. Em 12 meses você paga a um empregado o equivalente a 124 bezerros. Se a fazenda tiver 5 empregados a conta sobe para 622 bezerros. Pergunto a você: vale a pena criar boi?

Olha para o movimento da estrada, são muitos carros passando, matuta e desabafa:

- Quando o governo fala em financiamento para o produtor rural, não leva em conta de que 65% estão inadimplentes com os bancos e, em muitos casos, o banco anda querendo tomar a terra das pessoas que na vida inteira só aprenderam a ser criador de boi, de vaca, de bode. Nas secas de 58, 73, 83 e 93, o sertanejo conviveu com  21 meses consecutivo sem chuva, em cada uma destas secas, entretanto, teve ajuda, sim, dos bancos oficiais e a inadimplência foi mínimo. Hoje, o governo não sabe fazer estas contas. Os bancos oficiais também não. Pior: tratam o verdadeiro homem do campo, como eu, como foi o meu pai, como foi o meu bisavô como não passasse de um especulador de dinheiro.

O velho Saldanha se levanta, tira do bolso uma nota de 10 reais, paga as três garrafinhas de água mineral, olha para a moça do balcão – uma cabrocha bem fornida – e diz, educadamente: guarde o troco, menina. Despede-se de todos, volta para a camionete. Antes de bater a porta, falou:

- Vou agora me penitenciar com o dr. Rochinha. Tomara que o homem não tenha o dedo muito grosso.


Novo artigo do professor Benayon.


     MENSALÃO E CORRUPÇÃO
Adriano Benayon * - 13.08.2012
Os principais jornais, revistas e  TVs, sempre alinhados com os interesses imperiais,  dão grande destaque ao julgamento, no Supremo Tribunal Federal, do mensalão, levado adiante nas instâncias do Estado, porque atinge principalmente José Dirceu, um líder centralizador de poder, e tido por ser de esquerda.  Além disso, pode abalar a popularidade de Lula
2. Em todo o mundo, os oligarcas estrangeiros e seus agentes e laranjas locais tratam de minar quaisquer lideranças que aspirem a voos próprios e se tornem, assim, menos dependentes dos dinheiros daqueles.
3. O sistema de poder mundial trata de fazer alternar no Executivo partidos que cumpram suas determinações. No Brasil, conquanto tenha como agentes preferenciais o PSDB e aliados, a oligarquia anglo-americana -  para dar espaço a Lula – se valera, em 1994, das fraudes que alijaram Brizola do segundo turno.
4. E ela não fez virar a mesa, quando, em 2002, Lula derrotou o candidato de FHC,  desgastadíssimo pelos efeitos sobre a  população dos desastres causados pelo governo do PSDB.  Lula foi logo anunciando nomeações de agentes da oligarquia, como Meirelles para presidir o Banco Centra e Marina Silva, ministra do Meio-Ambiente.
5. Por outro lado, embora o PSDB não seja palatável para a maioria dos eleitores, a oligarquia conta com o tempo decorrido desde 2002 e com a amnésia ministrada pela grande mídia para fazer esquecer a devastação tucana.
6. E, para ajudar nisso, nada melhor que expor a responsabilidade do PT num grande esquema de corrupção, não  porque o PT não esteja atendendo os interesses do poder mundial,  mas porque os concentradores preferem manter viva sua alternativa mais segura, o PSDB.
7. Ademais, a corrupção está entre os temas que têm suscitado maior preocupação ao povo brasileiro, e não apenas no seio da classe média, tradicionalmente moralista.
8. Alguns blogs independentes ou patrocinados pelo atual governo lembraram que os tucanos cometeram, nos oito anos de FHC, atos de corrupção causadores  de danos muito mais profundos para o País, e nisso esses blogs têm razão.
9. Falta, porém, razão aos que negam o mensalão. Mais relevante que isso: deixam de observar que a corrupção do mensalão comprou parlamentares de partidos menores, não para aprovar propostas favoráveis à sociedade brasileira, mas para aprovar emendas constitucionais e leis que deram continuidade à agenda do império, a do Consenso de Washington e do FMI.
10. Isso parece até contraditório, já que, para esse tipo de coisa, o PT poderia ter o apoio da “oposição”, PSDB, DEM, PPS e outros, fieis à agenda entreguista, embora houvesse a possibilidade de se oporem, como fez o PT, no período FHC, sabendo que ela seria adotada de qualquer modo.
11. Mais que isso: o PT julgou necessário garantir maioria estável no Congresso, ameaçada pela flutuação dos votos de grande parte dos parlamentares do PMDB e de outros partidos cujo apoio depende de cargos e vantagens.
12. De qualquer forma, o mensalão não passa de um caso da corrupção de varejo. Mas esse teve grande repercussão, ao contrário do mensalão tucano em Minas Gerais e da ainda mais grave compra de deputados para votarem a favor da emenda constitucional que permitiu a reeleição de FHC.
13. E que dizer dos casos de mega-corrupção tucana com as privatizações,  evasão de divisas no escândalo do BANESTADO etc.?
14. O que o povo brasileiro precisa saber, para agir em consequência, é que a corrupção no País é sistêmica. Que quer dizer isso? Que ela decorre da estrutura econômica, social e política existente.
15. E o que caracteriza essa estrutura? A concentração da propriedade dos meios de produção em mãos de grupos econômicos, hoje, basicamente estrangeiros ou desnacionalizados.
16. Provém desses grupos a corrupção ativa, os abusos do poder sobre o mercado, as fraudes em prejuízo dos consumidores e outras formas de corrupção. Corrompem não só políticos e agentes públicos, mas gente do setor privado dentro desses próprios grupos e em outras empresas.
17. Tudo isso resulta no empobrecimento da grande maioria dos brasileiros, apesar de o País ser extremamente rico em terras férteis, água, minérios preciosos e estratégicos.
18. Passa, em geral, despercebido  que a corrupção no setor público parte, amiúde, do setor privado. Concorre para essa falta de percepção a atitude seletiva da grande mídia, a qual  enfatiza a corrupção no âmbito do Estado. Embora aponte também casos com empresários no pólo ativo da corrupção, trata de acobertar grandes transnacionais e bancos.
19. O aspecto social da estrutura econômica mostra-se na concentração da renda, com 60% da população sem renda ou ganhando menos de dois salários mínimos. O quadro é tão deplorável, que os “especialistas” da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República definem como de classe média as famílias com renda, por pessoa, entre R$ 291 e R$ 1.019 mensais.
20. Do outro lado, são colossais os ganhos das transnacionais e dos bancos, que comandam a economia e a política. As transferências das transnacionais ao exterior descapitalizam o País de forma aguda, inviabilizando que os ganhos do mercado sejam reinvestidos na economia produtiva. 
21. Até mesmo os brasileiros ricos, que têm muito menos poder e incluem servidores oficiais e extra-oficiais dos concentradores, já detinham, no final de 2010, recursos financeiros em paraísos fiscais no exterior de US$ 520  bilhões.
22. Claro está que os partidos políticos e os resultados das eleições são controlados pelos grupos concentradores, os quais determinam, ademais, o acesso das pessoas aos meios de comunicação e o que, através destes, se “informa” e desinforma aos cidadãos.
23. É de concluir, pois, que a estrutura política é incompatível com o Estado democrático de direito e decorre da estrutura econômica concentrada e desnacionalizada.
24. As normas democráticas da Constituição permaneceram letra morta, como a que limita os juros reais a 12% aa., enquanto as favoráveis aos concentradores são rigorosamente aplicadas e foram acrescidas das reformas de FHC, instituídas conforme as receitas do Consenso de Washington, FMI e  Banco Mundial e mantidas e prorrogadas nos governos petistas.
25. Deveria também ser conhecido de todos que a Constituição de 1988 foi fraudada para privilegiar o “serviço da dívida” no Orçamento Federal e realizar descomunal sangria, que já passa de R$ 7 trilhões,  esvaziando do País os seus recursos.
26. Ninguém, entre os constituintes, reparou na fraude. Será? Se alguém notou, fingiu que não notou. Nem o  relator nem o presidente da Assembléia Constituinte, nem seus assessores, nem líder de partido algum.
27. O estelionato foi cometido através de requerimento de fusão de emendas  de redação aos atuais artigos 165/167, inserindo no 166 o dispositivo fraudulentamente acrescentado ao texto aprovado no primeiro turno, ao submetê-lo para aprovação em segundo turno.
28. Na página do requerimento em que o texto foi adulterado, está a rubrica de Nelson Jobim, agora nomeado por Sarney, presidente do Senado, para liderar o grupo de “notáveis” que elabora revisão do pacto federativo. Constituição cidadã? Não, demagogia!  
29. A concentração e a desnacionalização da economia intensificaram-se desde 1954, e, desde 1988, esse processo acelerou-se.  Daí vem a inviabilidade de ser praticado no País qualquer sistema de governo democrático.
30.  Está arraigada, nas universidades e nos demais meios de comunicação social a falsa ideia de que pluralismo de partidos, “liberdade” de imprensa e de informação e eleições periódicas são suficientes para caracterizar a democracia.
31. Que essas condições não garantem democracia alguma está sendo mais percebido nos países “desenvolvidos” abalados pelo colapso financeiro e pela depressão (recessão é eufemismo, mal fundamentado através da manipulação de dados estatísticos).
32. Naquelas “democracias”, como no Brasil,  os partidos e as eleições são controlados pelos concentradores financeiros “privados”, os grandes bancos e transnacionais, que são de propriedade privada, mas exercem poder público.
33. Isso está na raiz dos colapsos econômicos e não só impediu de moderar a natural tendência à concentração do sistema capitalista, mas a agravou através da legislação e da política econômica.
34. Desde a crise de 2007, os concentradores privados ganharam recursos e vantagens governamentais da ordem de US$ 30 trilhões, enquanto as condições sociais se agravavam.
35. Portanto, é a oligarquia financeira que origina a corrupção sistêmica e dela se beneficia. Ademais as “formas democráticas” não evitaram sequer que fosse instituído nos EUA o Estado policial, principalmente a partir do golpe de 11 setembro de 2001.
36. Só os menos informados ignoram ter havido, nesse dia, um golpe da oligarquia para facilitar novas guerras e agressões imperiais e eliminar as garantias constitucionais, a pretexto de combater um terrorismo inexistente ou facilmente contível.
37. A “democracia” brasileira  é calcada nesses modelos nada exemplares, e a iniquidade social é maior que nos países “desenvolvidos”. E, como se isso tudo não bastasse,  há, ainda,  a urna eletrônica sem a possibilidade de conferir o voto.
38. Mas como erguer um sistema realmente democrático, com maior espaço para a democracia direta e capaz de assegurar que  a democracia representativa não mais seja a farsa que tem sido?
39. Como instituir sistema democrático sem transformação profunda na estrutura econômica e social? Ou será que teríamos de, antes, transformar as instituições políticas subordinadas aos concentradores da estrutura econômica?
42. Que fazer, então, diante do fato de que não há como sequer modificar superficialmente essas instituições enquanto elas estiverem de pé?
* - Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento, editora Escrituras, SP.



     MENSALÃO E CORRUPÇÃO
Adriano Benayon * - 13.08.2012
Os principais jornais, revistas e  TVs, sempre alinhados com os interesses imperiais,  dão grande destaque ao julgamento, no Supremo Tribunal Federal, do mensalão, levado adiante nas instâncias do Estado, porque atinge principalmente José Dirceu, um líder centralizador de poder, e tido por ser de esquerda.  Além disso, pode abalar a popularidade de Lula
2. Em todo o mundo, os oligarcas estrangeiros e seus agentes e laranjas locais tratam de minar quaisquer lideranças que aspirem a voos próprios e se tornem, assim, menos dependentes dos dinheiros daqueles.
3. O sistema de poder mundial trata de fazer alternar no Executivo partidos que cumpram suas determinações. No Brasil, conquanto tenha como agentes preferenciais o PSDB e aliados, a oligarquia anglo-americana -  para dar espaço a Lula – se valera, em 1994, das fraudes que alijaram Brizola do segundo turno.
4. E ela não fez virar a mesa, quando, em 2002, Lula derrotou o candidato de FHC,  desgastadíssimo pelos efeitos sobre a  população dos desastres causados pelo governo do PSDB.  Lula foi logo anunciando nomeações de agentes da oligarquia, como Meirelles para presidir o Banco Centra e Marina Silva, ministra do Meio-Ambiente.
5. Por outro lado, embora o PSDB não seja palatável para a maioria dos eleitores, a oligarquia conta com o tempo decorrido desde 2002 e com a amnésia ministrada pela grande mídia para fazer esquecer a devastação tucana.
6. E, para ajudar nisso, nada melhor que expor a responsabilidade do PT num grande esquema de corrupção, não  porque o PT não esteja atendendo os interesses do poder mundial,  mas porque os concentradores preferem manter viva sua alternativa mais segura, o PSDB.
7. Ademais, a corrupção está entre os temas que têm suscitado maior preocupação ao povo brasileiro, e não apenas no seio da classe média, tradicionalmente moralista.
8. Alguns blogs independentes ou patrocinados pelo atual governo lembraram que os tucanos cometeram, nos oito anos de FHC, atos de corrupção causadores  de danos muito mais profundos para o País, e nisso esses blogs têm razão.
9. Falta, porém, razão aos que negam o mensalão. Mais relevante que isso: deixam de observar que a corrupção do mensalão comprou parlamentares de partidos menores, não para aprovar propostas favoráveis à sociedade brasileira, mas para aprovar emendas constitucionais e leis que deram continuidade à agenda do império, a do Consenso de Washington e do FMI.
10. Isso parece até contraditório, já que, para esse tipo de coisa, o PT poderia ter o apoio da “oposição”, PSDB, DEM, PPS e outros, fieis à agenda entreguista, embora houvesse a possibilidade de se oporem, como fez o PT, no período FHC, sabendo que ela seria adotada de qualquer modo.
11. Mais que isso: o PT julgou necessário garantir maioria estável no Congresso, ameaçada pela flutuação dos votos de grande parte dos parlamentares do PMDB e de outros partidos cujo apoio depende de cargos e vantagens.
12. De qualquer forma, o mensalão não passa de um caso da corrupção de varejo. Mas esse teve grande repercussão, ao contrário do mensalão tucano em Minas Gerais e da ainda mais grave compra de deputados para votarem a favor da emenda constitucional que permitiu a reeleição de FHC.
13. E que dizer dos casos de mega-corrupção tucana com as privatizações,  evasão de divisas no escândalo do BANESTADO etc.?
14. O que o povo brasileiro precisa saber, para agir em consequência, é que a corrupção no País é sistêmica. Que quer dizer isso? Que ela decorre da estrutura econômica, social e política existente.
15. E o que caracteriza essa estrutura? A concentração da propriedade dos meios de produção em mãos de grupos econômicos, hoje, basicamente estrangeiros ou desnacionalizados.
16. Provém desses grupos a corrupção ativa, os abusos do poder sobre o mercado, as fraudes em prejuízo dos consumidores e outras formas de corrupção. Corrompem não só políticos e agentes públicos, mas gente do setor privado dentro desses próprios grupos e em outras empresas.
17. Tudo isso resulta no empobrecimento da grande maioria dos brasileiros, apesar de o País ser extremamente rico em terras férteis, água, minérios preciosos e estratégicos.
18. Passa, em geral, despercebido  que a corrupção no setor público parte, amiúde, do setor privado. Concorre para essa falta de percepção a atitude seletiva da grande mídia, a qual  enfatiza a corrupção no âmbito do Estado. Embora aponte também casos com empresários no pólo ativo da corrupção, trata de acobertar grandes transnacionais e bancos.
19. O aspecto social da estrutura econômica mostra-se na concentração da renda, com 60% da população sem renda ou ganhando menos de dois salários mínimos. O quadro é tão deplorável, que os “especialistas” da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República definem como de classe média as famílias com renda, por pessoa, entre R$ 291 e R$ 1.019 mensais.
20. Do outro lado, são colossais os ganhos das transnacionais e dos bancos, que comandam a economia e a política. As transferências das transnacionais ao exterior descapitalizam o País de forma aguda, inviabilizando que os ganhos do mercado sejam reinvestidos na economia produtiva. 
21. Até mesmo os brasileiros ricos, que têm muito menos poder e incluem servidores oficiais e extra-oficiais dos concentradores, já detinham, no final de 2010, recursos financeiros em paraísos fiscais no exterior de US$ 520  bilhões.
22. Claro está que os partidos políticos e os resultados das eleições são controlados pelos grupos concentradores, os quais determinam, ademais, o acesso das pessoas aos meios de comunicação e o que, através destes, se “informa” e desinforma aos cidadãos.
23. É de concluir, pois, que a estrutura política é incompatível com o Estado democrático de direito e decorre da estrutura econômica concentrada e desnacionalizada.
24. As normas democráticas da Constituição permaneceram letra morta, como a que limita os juros reais a 12% aa., enquanto as favoráveis aos concentradores são rigorosamente aplicadas e foram acrescidas das reformas de FHC, instituídas conforme as receitas do Consenso de Washington, FMI e  Banco Mundial e mantidas e prorrogadas nos governos petistas.
25. Deveria também ser conhecido de todos que a Constituição de 1988 foi fraudada para privilegiar o “serviço da dívida” no Orçamento Federal e realizar descomunal sangria, que já passa de R$ 7 trilhões,  esvaziando do País os seus recursos.
26. Ninguém, entre os constituintes, reparou na fraude. Será? Se alguém notou, fingiu que não notou. Nem o  relator nem o presidente da Assembléia Constituinte, nem seus assessores, nem líder de partido algum.
27. O estelionato foi cometido através de requerimento de fusão de emendas  de redação aos atuais artigos 165/167, inserindo no 166 o dispositivo fraudulentamente acrescentado ao texto aprovado no primeiro turno, ao submetê-lo para aprovação em segundo turno.
28. Na página do requerimento em que o texto foi adulterado, está a rubrica de Nelson Jobim, agora nomeado por Sarney, presidente do Senado, para liderar o grupo de “notáveis” que elabora revisão do pacto federativo. Constituição cidadã? Não, demagogia!  
29. A concentração e a desnacionalização da economia intensificaram-se desde 1954, e, desde 1988, esse processo acelerou-se.  Daí vem a inviabilidade de ser praticado no País qualquer sistema de governo democrático.
30.  Está arraigada, nas universidades e nos demais meios de comunicação social a falsa ideia de que pluralismo de partidos, “liberdade” de imprensa e de informação e eleições periódicas são suficientes para caracterizar a democracia.
31. Que essas condições não garantem democracia alguma está sendo mais percebido nos países “desenvolvidos” abalados pelo colapso financeiro e pela depressão (recessão é eufemismo, mal fundamentado através da manipulação de dados estatísticos).
32. Naquelas “democracias”, como no Brasil,  os partidos e as eleições são controlados pelos concentradores financeiros “privados”, os grandes bancos e transnacionais, que são de propriedade privada, mas exercem poder público.
33. Isso está na raiz dos colapsos econômicos e não só impediu de moderar a natural tendência à concentração do sistema capitalista, mas a agravou através da legislação e da política econômica.
34. Desde a crise de 2007, os concentradores privados ganharam recursos e vantagens governamentais da ordem de US$ 30 trilhões, enquanto as condições sociais se agravavam.
35. Portanto, é a oligarquia financeira que origina a corrupção sistêmica e dela se beneficia. Ademais as “formas democráticas” não evitaram sequer que fosse instituído nos EUA o Estado policial, principalmente a partir do golpe de 11 setembro de 2001.
36. Só os menos informados ignoram ter havido, nesse dia, um golpe da oligarquia para facilitar novas guerras e agressões imperiais e eliminar as garantias constitucionais, a pretexto de combater um terrorismo inexistente ou facilmente contível.
37. A “democracia” brasileira  é calcada nesses modelos nada exemplares, e a iniquidade social é maior que nos países “desenvolvidos”. E, como se isso tudo não bastasse,  há, ainda,  a urna eletrônica sem a possibilidade de conferir o voto.
38. Mas como erguer um sistema realmente democrático, com maior espaço para a democracia direta e capaz de assegurar que  a democracia representativa não mais seja a farsa que tem sido?
39. Como instituir sistema democrático sem transformação profunda na estrutura econômica e social? Ou será que teríamos de, antes, transformar as instituições políticas subordinadas aos concentradores da estrutura econômica?
42. Que fazer, então, diante do fato de que não há como sequer modificar superficialmente essas instituições enquanto elas estiverem de pé?
* - Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento, editora Escrituras, SP.